Às vezes o mundo torna-se demasiado grande para os nossos corpos. E quando damos conta os nossos caminhos já não se cruzam. Fica um espaço vazio entre nós, entre os passos que decidimos dar em direções opostas. E nesses dias, em que o mundo parece grande demais para um amor que nem sempre se aproxima, sinto que me foges pelos dedos e te escapas para um lugar qualquer. Como se as mãos que trago ao peito fossem uma casa vazia de alguém que decidiu partir. Ainda estás aqui e sinto o teu respirar a alojar-se no vazio, no espaço que se abre entre nós. Talvez o espaço que nos ultrapassa não seja maior que o medo de te ver desencostar o teu corpo do meu, num movimento brusco e inesperado. Às vezes o mundo torna-se demasiado grande para os nossos corpos, ou talvez seja o medo que se torna demasiado vertiginoso para alguém que vive à superfície de um abismo chamado amor. 

presa ao céu dos teus braços

"Nunca deixes que o mundo te prenda ao chão", dizias tu enquanto me pegavas pelos braços e me ensinavas a voar. E eu sorria como quem promete em silêncio caminhar sobre o ar que respriras. Não há suporte mais forte e mais débil que os braços que nos amparam, e eu negava a existência de qualquer outra forma de viver à superficie. E contigo eu não tinha medo da gravidade nem de viver à margem de qualquer lei que a natureza quisesse impôr. Quando duas almas pesam menos juntas, voar torna-se mais fácil do que pisar qualquer chão. "Deixa antes que ele te prenda a mim", disseste tu. E eu sorri ainda mais. "Como se o mundo precisasse de me prender".