presa ao céu dos teus braços

"Nunca deixes que o mundo te prenda ao chão", dizias tu enquanto me pegavas pelos braços e me ensinavas a voar. E eu sorria como quem promete em silêncio caminhar sobre o ar que respriras. Não há suporte mais forte e mais débil que os braços que nos amparam, e eu negava a existência de qualquer outra forma de viver à superficie. E contigo eu não tinha medo da gravidade nem de viver à margem de qualquer lei que a natureza quisesse impôr. Quando duas almas pesam menos juntas, voar torna-se mais fácil do que pisar qualquer chão. "Deixa antes que ele te prenda a mim", disseste tu. E eu sorri ainda mais. "Como se o mundo precisasse de me prender".
Os dias pareciam correr em direção ao abismo que é o medo de mudar. O mundo parecia empurrar-me para fora de mim, para dentro do escuro que é desconhecer. E eu, que sempre precisei de conhecer a terra para só depois pisar, arrasto-me devagar até ao chão que não conheço. Nem consigo conhecer. É na incerteza que me perco. E na certeza que o caminho não me cativa, mas ainda assim acredito, e é isso que faz com que me arraste, que talvez a meta me seduza.