A maioria dos dias passa pelo meio dos nossos braços com a pressa de quem não ousa ficar, e quando damos por nós já a vida nos roubou da memória os acasos de que somos feitos. Nesses dias, sinto a imensidão do tempo a cair-me sobre os ombros, e no peso do passado perco as nossas gargalhadas, como se tudo fosse mais escuro do que a minha memória me deixa iluminar. Tento recordar o jardim que guardava ao peito e que floria cada vez vez que os nossos olhos se cruzavam, mas na maioria dos dias admiro os jardins à nossa volta, e perco-me na imensidão das flores alheias. De nós, só por vezes surgem memórias vívidas, felicidades efémeras, sorrisos que se encontram e que fazem florir de novo o nosso próprio jardim. A maioria dos dias não nos pertencem, não nos aquecem, não nos deixam ser para além do que já fomos. E o medo propaga-se por quem ousa ser mais do que meros dias, mais do que meras memórias que não reluzem na maioria dos dias.

4 comentários:

  1. Alguém disse que passamos por aqui sozinhos. Viemos e vamos sozinhos, mas carregados de memórias e de sonhos. ã velocidade com que o coração bate é que determina se estamos vivos ou se estamos a existir.

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  2. Ja tinha saudades de passar por este cantinho para te ler! Um beijinho

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  3. Que texto belíssimo!
    Muito bem escrito, com muito sentimento.
    Parabéns!

    https://theincompletediary.blogspot.pt/

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