Murmuras-me ao ouvido as palavras mais bonitas enquanto a chuva se deixa cair lá fora, e quando dou por mim, já a chuva me parece brisa marinha, e tu um mar sereno que me abraça sem pressa. Navego em ti à tempo que baste para conhecer as tuas tempestades, e à tempo que chegue para que estas não me assustem. Já naveguei pelas tuas ondas mais agitadas, e já descansei no teu leito, quando o tempo se avizinhava mais amistoso. De ti, ainda espero conhecer novos recantos, viver novas aventuras, e passar por novas tempestades, esperando por novas bonanças. Lembras-me o mar por seres tão intenso, e perco-me em ti por seres tão imenso. E quando dou por mim, volto a ouvir a chuva, e tu continuas a murmurar no meu ouvido as palavras mais bonitas. 

Mais um dia sem naufragar.
Somos hoje mais imensos. Mais intensos. Vivemos serenos com as nossas verdades, acreditando que só são verdades por serem tão inteiramente nossas, e que, se não nos pertencessem seriam apenas inteiramente mentira. Brincamos hoje com as palavras porque já as conhecemos, porque sempre ousámos enfrentar as agitações lexicais que nos interpelavam, mesmo quando o medo se apoderava da nossa lúcidez gramatical. Eram tempestuosos os arremessos de palavras que, um contra o outro, ousávamos lançar, mas com o passar das várias tormentas, encontrámos a nossa própria boa esperança. Agora vivemos serenos com a imensidão dos nossos corpos, com a extensão das nossas palavras, que em vez de ferir, curam. E somos cada vez mais imensos. Cada vez mais intensos.