A maioria dos dias passa pelo meio dos nossos braços com a pressa de quem não ousa ficar, e quando damos por nós já a vida nos roubou da memória os acasos de que somos feitos. Nesses dias, sinto a imensidão do tempo a cair-me sobre os ombros, e no peso do passado perco as nossas gargalhadas, como se tudo fosse mais escuro do que a minha memória me deixa iluminar. Tento recordar o jardim que guardava ao peito e que floria cada vez vez que os nossos olhos se cruzavam, mas na maioria dos dias admiro os jardins à nossa volta, e perco-me na imensidão das flores alheias. De nós, só por vezes surgem memórias vívidas, felicidades efémeras, sorrisos que se encontram e que fazem florir de novo o nosso próprio jardim. A maioria dos dias não nos pertencem, não nos aquecem, não nos deixam ser para além do que já fomos. E o medo propaga-se por quem ousa ser mais do que meros dias, mais do que meras memórias que não reluzem na maioria dos dias.
@fotodaminhaautoria
Quando estás, o mar perece mais infinito, o céu parece feito de um azul mais claro e a terra, essa parece mais leve. Tão leve que não sei se a piso ou se apenas danço por cima dela, sem nunca lhe tocar realmente. Não é que as coisas se transformem quando vens, não é que o mundo entre numa metamorfose abrupta quando te aproximas - é que eu estremeço quando te vejo seguir firmemente em direção a mim. E tudo parece mudar à medida que te chegas mais perto. 

Talvez o amor não seja mais do que uma lente pela qual vemos o mundo. Talvez por isso te veja a chegar em tons de amor, numa leveza infinita que me consome, que me engole como uma onda e me arrasta para os teus braços. E se o amor é esta lente que tranforma a vista, então eu sei que nunca olharei para ti com outros olhos.